PMMA: o que levou o Conselho Federal de Medicina a restringir o uso da substância no Brasil

 PMMA: o que levou o Conselho Federal de Medicina a restringir o uso da substância no Brasil

Especialista explica o que é o polimetilmetacrilato, os riscos associados à substância e as complicações que motivaram a restrição de seu uso no país

O Conselho Federal de Medicina (CFM) publicou uma resolução que restringe o uso do polimetilmetacrilato (PMMA) em procedimentos estéticos no Brasil. A substância, conhecida por ser um preenchedor permanente, deixa de ser permitida para fins de estética e passa a ter uso restrito a situações específicas, como casos de lipodistrofia associada ao HIV, dentro de protocolos clínicos e em unidades de alta complexidade credenciadas pelo SUS.

A decisão veio em meio a alertas sobre complicações graves ligadas ao produto. Segundo o CFM, o PMMA pode causar “edemas locais, processos inflamatórios, telangiectasias, cicatrizes hipertróficas, reações alérgicas e formação de granuloma”. A entidade também informou que essas reações podem surgir de forma imediata, mediata ou tardia. Em outra manifestação, o conselho afirmou que “a medicina evolui e produtos mais seguros vêm para substituir produtos antigos”.

Complicações podem surgir anos depois

O PMMA tem comportamento diferente de substâncias absorvíveis, porque permanece nos tecidos por tempo indeterminado. Por isso, quando surgem problemas, a remoção costuma ser difícil e, em muitos casos, incompleta. Profissionais que estudam o tema apontam que o material pode provocar inflamações crônicas, endurecimento da região, deformidades, migração da substância e necrose tecidual.

Na avaliação da infectologista Sheila Paiva, do Hospital Mater Dei Goiânia, um dos pontos mais preocupantes é o risco de infecção. “As infecções associadas ao PMMA podem se manifestar de forma precoce ou tardia, inclusive anos após a aplicação”, diz.

Ela acrescenta que o quadro exige tratamento prolongado. “Muitas vezes são infecções complexas, causadas por microrganismos de difícil erradicação, exigindo tratamentos prolongados com antibióticos, múltiplas intervenções cirúrgicas e acompanhamento especializado.”

A médica também chama atenção para o impacto dessas complicações no dia a dia dos pacientes. “Em alguns casos, as sequelas físicas, funcionais e emocionais podem ser permanentes”, afirma. Em seu texto, Sheila reforça que o debate sobre o PMMA envolve segurança assistencial e avaliação cuidadosa da relação entre risco e benefício.

Casos recentes ampliaram a pressão por restrição

A discussão sobre o PMMA ganhou força após relatos recentes de complicações e morte em procedimentos estéticos no país. Em um dos casos mais citados neste ano, uma maquiadora de 48 anos morreu após uma remodelação glútea e de coxas com a substância em São Paulo. O caso ganhou repercussão nacional e passou a ser citado nas discussões sobre a segurança do PMMA em procedimentos estéticos.

O CFM já vinha cobrando a proibição do uso estético do PMMA antes da resolução publicada em junho. Para a entidade, o material oferece riscos que superam os benefícios quando aplicado com finalidade estética. No texto divulgado pelo conselho, a avaliação foi direta: “ao longo do tempo, ficou demonstrado que os riscos suplantam seus benefícios”.

A nova norma mantém a possibilidade de uso apenas em situações clínicas específicas, com indicação formal e estrutura adequada para atendimento. Fora desse contexto, o PMMA fica vetado para fins estéticos no Brasil. Com isso, o tema volta ao centro da discussão sobre segurança em procedimentos injetáveis, especialmente em clínicas e serviços que atuam com harmonização e preenchimento corporal.

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