Medicamento para obesidade pode aumentar testosterona em homens, aponta estudo clínico

Medicamento para obesidade pode aumentar testosterona em homens, aponta estudo clínico

Estudo com tirzepatida demonstra melhora hormonal em pacientes com obesidade e reacende o debate sobre estratégias no manejo do hipogonadismo funcional.




Um estudo científico publicado em julho na revista Reproductive Biology and Endocrinology trouxe novos elementos para o debate sobre saúde hormonal masculina. A pesquisa aponta que a tirzepatida — medicamento já utilizado no tratamento do diabetes tipo 2 e da obesidade, comercializado com o nome Mounjaro — pode contribuir para a recuperação dos níveis de testosterona em homens com obesidade e hipogonadismo funcional, sem a necessidade imediata de reposição hormonal direta.


O trabalho acompanhou 83 homens com obesidade e queda de testosterona associada a alterações metabólicas, e não a falhas primárias dos testículos. Os participantes foram divididos em três grupos: um tratado com tirzepatida, outro submetido apenas a mudanças no estilo de vida, como dieta e atividade física, e um terceiro que recebeu reposição tradicional de testosterona em gel. Em apenas dois meses, o grupo que utilizou a tirzepatida apresentou aumento significativo da testosterona total, livre e biodisponível, além da elevação de hormônios como LH e FSH, fundamentais para estimular a produção natural do hormônio.


Para o médico nutrólogo e intensivista Dr. José Israel Sanchez Robles, os resultados reforçam uma visão cada vez mais defendida na medicina. “A obesidade, sobretudo a obesidade central (acúmulo de gordura visceral), está diretamente associada à disfunção do eixo hipotálamo-hipófise-gonadal no homem, levando à redução dos níveis de testosterona. O tratamento da causa metabólica — como a perda de peso induzida por intervenções medicamentosas ou mudanças no estilo de vida — frequentemente permite a recuperação parcial ou total da produção endógena de testosterona”, afirma. Segundo ele, a inflamação crônica e a resistência à insulina criam um ambiente que inibe a produção hormonal. “A redução da testosterona em homens com obesidade não deve ser interpretada isoladamente como uma simples deficiência hormonal. Trata-se de um reflexo de uma desregulação mais ampla do eixo endócrino-metabólico, em que múltiplos sistemas contribuem para o mau funcionamento hormonal sistêmico”, explica.


“Além da melhora nos níveis de testosterona, o estudo demonstrou uma redução média de aproximadamente 8% no peso corporal, associada à diminuição da circunferência abdominal, redução nos níveis séricos de estradiol e melhora na composição corporal, evidenciada pelo aumento da massa magra. Trata-se de uma evidência inicial, oriunda de estudos clínicos com número limitado de participantes, mas que aponta para um possível efeito benéfico sobre o eixo hormonal masculino em resposta à perda de gordura visceral e melhora metabólica”, explica o médico Dr. José Israel.


O especialista ressalta, no entanto, que os resultados não significam uso indiscriminado do medicamento. “A tirzepatida não substitui uma avaliação médica completa. A decisão terapêutica deve ser individualizada, baseada em exames complementares, histórico clínico e acompanhamento regular por profissional habilitado”, alerta. Ele destaca que níveis de testosterona total abaixo de 300 ng/dL estão associados a sintomas como fadiga, diminuição da libido, perda de massa muscular e aumento do risco cardiovascular. “Reverter o hipogonadismo funcional é possível, mas demanda uma abordagem estratégica, disciplina do paciente e acompanhamento médico contínuo”, acrescenta o especialista.


A pesquisa amplia as possibilidades terapêuticas no manejo da obesidade e suas repercussões hormonais. No entanto, especialistas enfatizam a necessidade de acompanhamento médico contínuo, intervenções no estilo de vida e prudência na adoção de qualquer tratamento farmacológico.


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