Em Goiás, micro e pequenas empresas responderam por 68% das novas vagas formais em janeiro; histórias de empreendedores mostram o que existe por trás desses números
Por Ageu Macedo
Começar sozinho, transformar uma habilidade em fonte de renda, contratar a primeira pessoa ou abrir as portas de uma loja. Por trás de cada pequeno negócio existe uma história particular, mas também uma dinâmica que se repete: à medida que uma empresa cresce, ela passa a movimentar não apenas a vida do empreendedor, mas também a de funcionários, fornecedores, clientes e outras atividades ao seu redor.
Em Goiás, esse movimento tem peso expressivo na economia. Em janeiro de 2026, as micro e pequenas empresas responderam por 68% do saldo de empregos formais gerados no Estado. Foram 7.283 das 10.733 vagas abertas no mês, segundo análise do Sebrae Goiás com base no Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged).
Em Goiânia, os números também mostram a relevância do comércio. Dados do Caged reunidos no Panorama Econômico da CDL Goiânia apontam que 16.792 vagas formais foram criadas na capital no primeiro semestre de 2025. O comércio respondeu por 689 postos, mantendo saldo positivo no período.
O impacto aparece também em períodos específicos. Em fevereiro de 2025, comércio e serviços foram responsáveis por 5.011 das 5.945 novas vagas formais criadas em Goiânia. Sozinho, o comércio abriu 862 postos de trabalho, alta de 82% em relação ao mesmo mês de 2024. Naquele momento, 22% dos 564.962 empregos formais existentes na capital estavam concentrados no setor de comércio.
Da primeira contratação ao desafio de crescer
É nesse cenário que se insere a história do empresário Brenno Augusto Alves Naves, proprietário de uma ferragista. O negócio começou com ele sozinho. Conforme a demanda aumentou, a esposa passou a trabalhar na empresa e, depois, veio a primeira contratação. Hoje, são seis pessoas, incluindo o casal.
Para Brenno, o momento em que outra pessoa passou a depender da empresa para gerar renda representou uma mudança de perspectiva. “Foi acontecendo aos poucos. No começo era só eu. A demanda foi aumentando, minha esposa veio trabalhar comigo e, depois, trouxemos mais uma pessoa. Essa primeira contratação marcou muito essa mudança, porque o negócio começou a gerar renda para outra família também”, conta.
A primeira contratação contínua na empresa até hoje. O crescimento, no entanto, trouxe novas responsabilidades. Se antes decisões podiam ser tomadas de forma imediata, agora Brenno precisa administrar processos, fluxo financeiro, equipe e estratégias de vendas.
“Quando era só eu, muita coisa eu resolvia na hora. Hoje, com seis pessoas, preciso planejar melhor, organizar os processos e pensar em como cada decisão afeta todo mundo. Fico feliz de ver que o negócio se tornou uma fonte de renda para eles também e quero que encontrem aqui oportunidade de aprender e crescer com a gente”, afirma.
| Brenno Augusto Alves Naves, com esposa e filha na inauguração da segunda loja |
Para o empresário, um dos principais desafios está justamente em acompanhar financeiramente o crescimento. O aumento das vendas exige mais estoque, estrutura e organização, enquanto os recebimentos nem sempre acompanham o mesmo ritmo das despesas.
“Crescer acaba sendo mais difícil do que começar do zero. A demanda aumenta, você precisa comprar mais mercadoria e melhorar a estrutura, mas o dinheiro das vendas nem sempre entra no mesmo ritmo dos pagamentos. Faturamento alto, sozinho, não garante uma empresa saudável”, explica.
A tecnologia também passou a fazer parte dessa trajetória. Brenno investe em ferramentas de análise de vendas e operação em marketplaces e atualmente busca novos conhecimentos para aprimorar a gestão. “Chega uma hora em que você não consegue mais acompanhar tudo de cabeça. Precisa ter informação para entender o que está funcionando e o que precisa mudar. Continuo aprendendo porque os desafios também mudam conforme a empresa cresce”, diz.
Empreender por escolha e por necessidade
A trajetória de Lilliam Rezende de Almeida, proprietária da Lilliam Cookie, apresenta outra realidade dentro do universo dos pequenos negócios. Bióloga e professora, ela descobriu a decoração de biscoitos de maneira despretensiosa, ao preparar bolachas para o Natal com os filhos.
Sem formação inicial na área, decidiu fazer cursos e se aperfeiçoar. A atividade, que começou como uma experiência pessoal, ganhou importância quando seu contrato como professora da rede estadual chegou ao fim e ela precisou encontrar uma nova fonte de renda.
“A ideia surgiu de maneira despretensiosa. Eu sempre achei as bolachas de Natal lindas e fiz para decorar com meus filhos. Gostei muito e aquilo despertou uma paixão. Comecei então a fazer cursos e me aperfeiçoar na técnica”, conta.
A maternidade também teve papel importante na mudança de trajetória profissional. Para Lilliam, conciliar os cuidados com os filhos e o mercado de trabalho tornou-se um desafio que contribuiu para a decisão de empreender.
“Eu sou bióloga, dava aula e tenho dois filhos. Associar maternidade e mercado de trabalho é muito complicado. Algumas portas se fecham e a gente precisa correr atrás e se virar. Quando meu contrato terminou, aquela atividade que tinha começado como uma paixão também se tornou uma necessidade de renda”, relata.
No ano passado, ela realizou outro passo importante: abriu a loja física. A operação, porém, ainda é essencialmente individual. Lilliam cuida do atendimento, dos orçamentos, da produção, da decoração e das embalagens. Em períodos de maior demanda, como o Natal, recebe apoio do marido, da mãe e da cunhada.
| Lilliam Rezende de Almeida, proprietária da Lilliam Cookie |
“A empresa sou eu, Lilliam. Eu atendo, embalo, faço orçamento, decoro, faço tudo. Em épocas de maior demanda, conto com a ajuda da minha família. É um negócio que está crescendo, mas ainda depende muito diretamente do meu trabalho”, afirma.
Para ela, o desafio de crescer está diretamente relacionado à necessidade de equilibrar responsabilidades e fluxo financeiro. “Empreender é para os fortes. É desafiador e muito difícil. Quando você dá um passo para frente, aumentam também as responsabilidades. Você precisa honrar muitos compromissos para conseguir honrar outros e manter um fluxo que permita que o negócio continue funcionando”, destaca.
Mais do que empresas
As histórias de Brenno e Lilliam ajudam a ilustrar uma dimensão que os números econômicos nem sempre conseguem mostrar: o pequeno negócio como espaço de geração de renda, aprendizado e transformação de trajetórias profissionais.
O próprio IBGE acompanha a entrada, saída e sobrevivência das empresas formais brasileiras e analisa esses movimentos de acordo com porte e atividade econômica, mostrando que a permanência no mercado é uma dimensão importante para compreender o empreendedorismo.
Para Brenno, a dimensão humana do negócio é justamente uma das principais razões para continuar crescendo. “Quando olho para o começo, quando era só eu, e vejo que hoje somos seis pessoas trabalhando juntos, percebo o quanto esse negócio passou a fazer parte da vida de outras famílias. Isso me dá satisfação, mas também muita responsabilidade. Quero ver a empresa crescer e poder criar mais oportunidades para quem está caminhando com a gente”, afirma.