População brasileira tem saúde respiratória impactada pela emissão de GEEs

 População brasileira tem saúde respiratória impactada pela emissão de GEEs 

Queima de combustíveis fósseis pelos transportes rodoviário, individual e público é apontada como um dos principais responsáveis. Coordenador técnico e fundador do Mova-se Fórum Nacional de Mobilidade, Miguel Angelo Pricinote, defende descarbonização urgente do setor 

Dados da Universidade de São Paulo (USP), WRI Brasil e Instituto Ar revelam que a poluição do ar causa mais de 51 mil mortes anuais no Brasil. Para o Sistema Único de Saúde (SUS), o custo direto é alarmante já que as 69 mil internações públicas estimadas pela mesma causa oneram o Estado em R$ 126,9 milhões. Nesse cenário, estudo elaborado pela Coalizão para a Descarbonização dos Transportes, composta por entidades dos setores público, privado, acadêmico e da sociedade civil, identificou que o setor de transportes é responsável por 11% das emissões brutas dos chamados Gases de Efeitos Estufa (GEEs) do Brasil – que são os responsáveis por esses impactos na saúde da população. Desse total, o transporte rodoviário responde por mais de 90%. 

De acordo com o fundador e coordenador técnico do Mova-se Fórum Nacional de Mobilidade, Miguel Ângelo Pricinote, a dependência do transporte individual e a queima extensiva de diesel fóssil saturam as unidades de terapia intensiva muito antes de paralisarem as vias expressas. “É imperativo destacar que, embora o foco recaia frequentemente sobre o transporte coletivo, os caminhões são os maiores vilões da contaminação atmosférica urbana e das emissões de GEEs, já que também emitem o Carbono Negro (Black Carbon), identificado pelo professor Paulo Artaxo, do IPCC (sigla em inglês para Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas), como o segundo maior agente de forçamento climático global, atrás apenas do dióxido de carbono (CO₂)”, explica. 

Diante disso, Pricinote reforça que a transição do transporte para modelos de baixo carbono é um imperativo de sobrevivência que conecta a infraestrutura das ruas diretamente aos pulmões da população. “A configuração do espaço urbano não é meramente uma sobreposição de asfalto e concreto; ela é, fundamentalmente, uma extensão da biologia humana. No último dia 7 de abril, ao celebrarmos o Dia Mundial da Saúde, a data nos impôs uma reflexão técnica e ética: nossas cidades foram desenhadas para promover a vida ou para cultivar patologias? Sob a ótica de um planejador urbano, a mobilidade urbana precária deixou de ser apenas um gargalo logístico ou uma ineficiência econômica para se tornar uma crise sanitária silenciosa”, avalia. 

Nesse contexto, o coordenador do Mova-se pontua que emerge a "Ética do Carbono" – conceito que estabelece a negligência regulatória sobre as emissões não apenas como uma falha administrativa, mas um dilema moral, uma vez que o ar — o insumo biológico mais básico — está comprometido pela dependência de combustíveis fósseis. “Portanto, devemos colocar na pauta do dia que a urgência climática e sanitária exige que a descarbonização deixe de ser um conjunto de iniciativas isoladas para se tornar uma Política Nacional, conforme defendido pela Associação Nacional de Transportes Públicas (ANTP), no Caderno Técnico 29: Rotas Tecnológicas de Descarbonização”, afirma. 

Capitais na vanguarda da descarbonização 

De acordo com o Raio X do transporte coletivo sustentável no Brasil, que demonstra a diversidade de rotas tecnológicas e políticas públicas na estratégia brasileira de descarbonização, conforme pode ser visto no infográfico da Fundação Políticas e Compromissos Nacionais acima, alguns projetos têm colocado capitais brasileiras na vanguarda desse processo. É o caso do Programa Nova RMTC (Rede Metropolitana de Transporte Coletivo de Goiânia), que, ao atender 2,5 milhões de pessoas com uma frota de 1,23 mil ônibus, o Estado de Goiás optou por uma transição pragmática.  

“O projeto prevê metas escalonadas: uma meta inicial de 50 ônibus a gás, dos quais 15 veículos já estão firmados para este ano. O objetivo final é atingir 500 ônibus movidos a biometano, o que representaria 40,65% da frota atual. Por ser um combustível drop-in – que é renovável e quimicamente idêntico aos combustíveis fósseis, como o diesel e a gasolina – o biometano permite descarbonizar sem o custo proibitivo da eletrificação imediata”, explica Miguel Angelo Pricinote. 

Em Curitiba (PR), a previsão é eletrificar 30% da frota, o que seria equivalente a 1,6 mil ônibus, até 2030, e, até 2049 contar com 100% da frota movida a energia limpa. Já na capital baiana, até 2024, 30% dos ônibus do BRT foram eletrificados, com previsão de substituição gradual de toda a frota, de acordo com a Lei 16.802/2018. Em longo prazo, a administração de Salvador prevê um redução progressiva do dióxido de carbono fóssil e de demais GEEs. 

Sobre o Mova-se Fórum Nacional de Mobilidade @movaseforumdemobilidade                  

O Mova-se Fórum Nacional de Mobilidade foi criado em 2021 por especialistas em mobilidade urbana de diversas áreas, com o intuito de discutir e contribuir com soluções para a mobilidade do Brasil. O grupo, que começou com quatro integrantes e hoje conta com mais de 600 profissionais – entre técnicos, pesquisadores e professores do segmento no país –, tornou-se destaque em pesquisas e desenvolvimento de conhecimento sobre transporte público, pedestres, vias inteligentes e temas relacionados. 

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