Brasil registra 388 mortes por dia por hipertensão, mas tratamento enfrenta falta de adesão e acesso
No Dia Nacional de Prevenção e Combate à Hipertensão Arterial, a cardiologista Fernanda Gerst, da Clínica Vittá, alerta para os perigos da doença que mata mais de 140 mil brasileiros por ano
Os dados são alarmantes: 388 pessoas morrem por dia no Brasil em decorrência da pressão alta, o que soma um total que supera 140 mil óbitos anuais, de acordo com dados do Ministério da Saúde. Para alertar sobre os riscos da doença, foi instituído o Dia Nacional de Prevenção e Combate à Hipertensão Arterial, por meio da Lei nº 10.439/2002, com o objetivo de conscientizar a população sobre a doença que afeta milhões de pessoas no Brasil.
A hipertensão arterial, popularmente conhecida como pressão alta, ocorre quando os níveis da pressão sanguínea nas artérias atingem ou ultrapassam 140/90 mmHg (14 por nove). A condição força o coração a trabalhar com sobrecarga e pode elevar o risco de acidente vascular cerebral (AVC), infarto, aneurisma arterial, insuficiência renal e insuficiência cardíaca.
A cardiologista Fernanda Gerst, da Clínica Vittá, destaca que o desafio não está apenas no diagnóstico, mas na continuidade do tratamento. “Muitas vezes o diagnóstico é feito, mas falta acompanhamento, falta adesão, falta entender que é uma doença que a gente precisa tratar todos os dias das nossas vidas”, afirma.
Herança genética e hábitos de vida
De acordo com o Ministério da Saúde, a hipertensão é herdada dos pais em 90% dos casos. No entanto, fatores comportamentais desempenham papel crucial no desenvolvimento e na gravidade da doença: entre os principais gatilhos estão o fumo, o consumo excessivo de bebidas alcoólicas, a obesidade, o estresse, o elevado consumo de sal, níveis altos de colesterol e o sedentarismo. A incidência também é maior em pessoas da raça negra, diabéticos e idosos.
A especialista explica que, mesmo para aqueles com predisposição genética, os hábitos de vida podem fazer a diferença entre uma hipertensão precoce e agressiva ou uma doença que surge tardiamente, com menos complicações. “Fazer atividade física, tentar manter o corpo com menor percentual de gordura e maior de músculo, consumir alimentos que sejam da terra, saudáveis, sem excesso de industrializados e ultraprocessados”. Essas são as orientações da médica para que a descoberta da doença ocorra antes de qualquer dano ao organismo.
Sintomas silenciosos e check-up
Ao contrário do que muitos imaginam, a hipertensão não costuma dar sempre sinais claros no cotidiano. Dores no peito, dor de cabeça intensa, tonturas, zumbido no ouvido, fraqueza, visão embaçada e sangramento nasal geralmente só aparecem quando a pressão sobe a níveis muito elevados. “Os órgãos estão sendo lesionados e o paciente não percebe”, alerta Fernanda Gerst.
A única maneira de diagnosticar a doença é aferir a pressão regularmente. A recomendação do Ministério da Saúde é que pessoas acima de 20 anos meçam a pressão ao menos uma vez por ano. Em famílias com histórico de hipertensão, o ideal é fazer a medição no mínimo duas vezes ao ano. A partir dos 30 ou 35 anos, a cardiologista recomenda a realização de check-ups periódicos, especialmente para quem pratica atividade física ou tem fatores de risco
Tratamento negligenciado e consequências
Quando não controlada, a pressão alta pode provocar danos progressivos e irreversíveis. “Causa lesões aos vasos sanguíneos. Aumenta o risco de formar placa de gordura, de o coração ficar mais inchado, mais grosso, das paredes das artérias ficarem mais frágeis, das cavidades do coração ficarem maiores. Afeta a retina, o cérebro, o rim”, afirma a médica sobre as possíveis consequências de um tratamento negligenciado.
A cardiologista ainda reforça que, junto com o diabetes, a hipertensão é um dos principais fatores de risco para AVC e infarto, justamente por ser comum e por lesar o endotélio vascular – monocamada de células que reveste internamente todos os vasos sanguíneos –, o que pode dar início à formação de placas de gordura e eventos cardiovasculares mais graves.
Alimentação e prevenção
O Ministério da Saúde lançou em 2014 o Guia Alimentar para a População Brasileira, atualizado com orientações práticas para uma alimentação saudável e balanceada. Em 2015, veio a publicação Alimentos Regionais Brasileiros, que valoriza a cultura alimentar local. Além disso, o Plano Nacional de Redução de Sódio em Alimentos Processados estabeleceu a meta de retirar 28.562 toneladas de sódio dos produtos industrializados até 2020 – mais de 14 mil toneladas já foram eliminadas.
Em 2017, foi lançada a Plataforma Saúde Brasil, com quatro pilares de incentivo à promoção da saúde: parar de fumar, ter peso saudável, alimentar-se melhor e praticar exercícios. Mas, para a cardiologista, ainda é preciso mais. “O estresse também aumenta a pressão. A gente precisa equilibrar todos os pratinhos: tempo, disposição, remuneração, conhecimento, empatia. Tudo isso tem que estar junto”, esclarece a cardiologista.
Dificuldades do tratamento gratuito
Embora o Sistema Único de Saúde (SUS) ofereça medicamentos gratuitos para hipertensão nas Unidades Básicas de Saúde (UBS) e por meio do programa Farmácia Popular, o índice de mortalidade permanece alarmante. Na avaliação da cardiologista, as razões são múltiplas e incluem falta de acesso contínuo à saúde, campanhas educacionais intermitentes e, sobretudo, a baixa adesão dos pacientes ao tratamento.
“As pessoas acham que não sentem, não tem problema. A pressão controlou, elas param a medicação. E pelo contrário, elas não entendem que é uma doença crônica, que tem que ser tratada a vida inteira”, explica a médica. Ela acrescenta que, embora em alguns casos a perda de peso e a mudança de hábitos possam levar à suspensão dos remédios, na maioria das situações o tratamento é contínuo – com ajustes de dose, mas sem interrupção.
Outro ponto crítico apontado pela especialista é a falta de tempo do profissional de saúde nas consultas públicas. “O profissional que só tem dez minutos para fazer uma consulta vai dar o diagnóstico e a receita, mas não vai falar de dieta, atividade física, da importância do remédio, dos horários certinhos. É um problema estrutural: falta profissional competente e, mesmo que seja competente, falta tempo para esse profissional atender”.
O alerta permanece: a hipertensão pode ser silenciosa, mas suas consequências são fatais. Com tratamento gratuito disponível, o grande desafio vai além do diagnóstico – está na adesão contínua, na prevenção e no acesso efetivo à saúde. Afinal, como ressaltado pela cardiologista da Clínica Vittá, controlar a pressão não é um ato isolado, mas um compromisso diário com a vida.

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